terça-feira, 19 de maio de 2009

Malha de Imagens da Pesca








Fotografo por acreditar que é a minha maneira mais sincera de falar sobre uma coisa. Minhas fotografias, todas as vezes, são os rastros do que vivo e do que de fato me emociona.
Nasci e me criei em cidade portuguesa, decodificando as tramas de um português de além mar, para o que somos a eles um Brasil de além Tejo. Fui de tamancas ao colégio, creiam-me. Pequena, vi no Rio Grande a pesca da Tainha. Milhares delas, no arrastão da rede. Fotografar a pesca foi um retorno ao mar, meu re-criador, eu – criatura.
Para além do falar, gosto de mostrar, crendo que bastaria. Penso sempre na Fotografia como a linguagem muda mais inteligível que se tem conhecimento.
O fragmento que levo para mostrar na Unicamp traz uma parte das fotografias que, em seu conjunto, buscam retratar o cotidiano dos homens que realizam a pesca artesanal de beira de praia, especialmente na Praia do Campeche, cidade de Florianópolis.
Este é um recorte pequeno dentre mais de quatro mil fotos, resultado de seis anos de pesquisas e convívio junto aos pescadores, do que é a lida no mar, submissa ao clima, a fé, a convivência dos pescadores, os sentidos de observação e de trabalho e partilha.
Interpretação subjetiva, escolha e recorte da cena? Sim, por tratar-se de fotografias, com seu referente sempre na ordem do real. No comando, o dedo que clica obedecendo o olho que vê, e o pensamento, ah, o pensamento... Eu recorto. A luz, escolhida. A subjetividade, minha e vossa. Interpretem à vossa maneira, as fotos já não me pertencem.

A Pesca Artesanal na Praia do Campeche







"Malha de Imagens da Pesca" é o título da Mostra que farei na Unicamp, neste mês de julho. É porque vejo o universo da pesca artesanal como uma malha complexa, feita de espaços e esperas, lanços que fogem ao alcance das vistas comuns.
Quando cheguei no Campeche, desejava fazer um estudo visual, talvez curto, até, de uma comunidade típica, e busquei raízes: a mesma pesca da tainha daqui, a pesca de arrastão, eu via quando criança na cidade onde nasci: Rio Grande. Comecei seguindo os conselhos dos meus Mestres: Etienne Samain, Fábio Fantazzini, Zé Sabino: fui discreta, quase invisível, e fui aprendendo a ser uma figura que não perturbasse. E é difícil! Meus movimentos, minha curiosidade, minhas necessidades, minha feminilidade, tudo, tive que adaptar ao mundo masculino e cheio de regras morais da pesca com a canoa a remo.
Valeu a pena. Aprendi um pouco dos códigos, das crenças, da fé e da maneira de proceder, não só dos homens da pesca, suas esposas, suas famílias, mas também da comunidade e até da cidade. Tudo tão diferente... Fiquei procurando nas intersecções da malha da pesca o que nos une, o que é comum a todos nós humanos. E bem lá no meio, de alguma forma, me reencontrei.
Três anos após o início do meu trabalho, fui convidada a sair na canoa, o que, se por um lado contrariava os costumes (mulheres não saem no barco por não terem utilidade lá, e porque os homens não desejam - desejam preservar seu ambiente masculino, e fizeram disto uma crendice: Mulher na pesca dá azar. E tantas outras... ), por outro, era uma honra. Se saí na canoa centenária, era porque o mestre Getúlio, o patrão de rede, da pesca, assim determinou. E ninguém vai contra a vontade do Mestre.
O mestre da pesca assim determinou porque percebe que a rica tradição da pesca artesanal vem sendo ameaçada de extinção, com o crescimento da pesca em escala industrial e aprimoramento dos aparelhos de pesca. Então, como já tinha cursado segundo grau, este mestre, Getúlio Manoel Inácio, cursou faculdade à distância: Pedagogia! Desejava aprender maneiras eficazes de ensinar aos mais novos a pesca.
Nesta trama, nesta malha, estava eu, que fotografava e expunha; a televisão, o jornal e o rádio divulgavam (fiz quatro exposições do material dos outros anos) e o Mestre considerou que eu poderia ter as fotos que ninguém tinha: feitas a partir da canoa em direção à praia, o que só poderia acontecer se eu estivesse embarcada! Na verdade, foi uma pesca para turistas verem, e havia um pequeno cardume de 200 outros peixes, acho que eram tainhas facão, e foram apanhados. Até então, a única mulher a sair na canoa tinha sido uma irmã de Getúlio, há 30 anos. Perguntei como se deu, e ele me respondeu: "Ela queria muito. E aí todos aceitaram, pois fora por imposição de Papai".
A magia que domina a atividade da pesca é indescritível, e nem em todo meu acervo (cerca de 4000 fotos) e muito menos nestas que agora levo a Unicamp, poderia dar a entender o que seja um 'lanço' (lance de pesca). Quando os homens vão remando ao mar, obcecados por cercar o cardume (que também se chama 'malha'!), e a 'puxada' ou 'arrastão', que reúne toda a comunidade masculina, e depois o 'quinhão', a partilha dos peixes (divididos pelo mestre, que é o dono da 'parelha de pesca', pelo patrão do barco, que pode ser ele mesmo ou outro por sua confiança designado, remadores, mais os que puxam a rede (destes últimos, cada um pode levar uma ou duas tainhas de acordo com o montante total) e finalmente a comunidade, as pessoas mais pobres, etc. É uma aula. Uma aula que compareci em madrugadas frias e entardeceres de fogo, em dias de Sul soprando bravos, de frios gelando até os ossos. Especialmente em dias de mar ameno, manhãs, tardes, de aparente ócio...
Mas tem valido a pena, nenhum diploma, mas uma sensação de leveza e de plenitude, e uma ansiedade que me invade mal começa o mês de maio.
Se me alongo ao contar estas histórias, é porque a paixão é algo que se derrete e não conseguimos conter. Não sei onde guardo alguma racionalidade quando os homens acenam panos brancos do alto das dunas, anunciando a visão de um grande cardume...
E lá se vão 2, 3, 4 mil peixes para as panelas... Em tempos antigos, maio e junho eram os meses dos casamentos por aqui, era um dinheiro extra na vida dos pescadores por subsistência...
A História de Seu Déca, a história do Canal das Bruxas e de como elas me tomaram as imagens recém feitas... Conto em outra feita. E é tudo verdade.

O Pintor de Batalhas

O Pintor de Batalhas é um livro curioso. Amor, guerra e arte.
É a trama da dor da guerra que amarra esta ficção, escrita pelo ex-fotógrafo Arturo Pérez-Reverte.
É um bom livro, mas não é envolvente. É cansativo e previsível.
Quem fotografa a algum tempo, e especialmente acompanha obras e publicações relacionadas à arte e à fotografia, vai encontrar uma colagen interessante de dados, fatos e teorias que vimos aqui e acolá. Cézanne, Goya, Susan Sontag.
Há um bom trabalho de pesquisa relacionado às artes plásticas e à teoria das imagens de guerra. Entretanto, no que diz respeito à arte, não soa natural, não flui no romance: parece mais uma colagem de pesquisa.

Andrés Faulques não esquece sua amada Olvido Ferrara, que morreu na guerra, vítima de uma mina, assim como Robert Cappa. Ivo Markovic, o croata, fica famoso após a foto feita por Faulques, mas quer matá-lo por não deixar esquecer.
Faulques abandona as fotografias de guerra e vai viver isolado, pintando um grande mural sobre guerras.
Ficamos buscando onde está a força do romance. A história de amor não seduz. Ele considera a amada superior a ele em tudo: sexo, beleza, juventude, atrevimento. Dá-nos a entender que ela está de férias na guerra, que está lá para morrer (como de fato), e que ele sim é o trabalhador. E que se livrará daquilo tudo assim que puder. Quando ela morre, ele se auto-exila, e fica até o curto resto da vida lembrando não do grande amor, mas da grande admiração, que vivera por Olvido Ferrara. E se culpa, também ele ruma para o fim.
As histórias das fotos que Faulques faz também não interessam: o vídeo d'Os Fotógrafos da National Geographic é bem mais interessante. Alguma categoria masculina talvez se interesse pelos relatos das fotografias: mas creio que não. Tem pouco sangue correndo, inclusive. Falta paixão na maioria das descrições. Tem trechos que deixam-nos na dúvida sobre a fidelidade da tradução: será que ele escreveu uma coisa tão inconsistente...? Os diálogos da página 178, para citar um exemplo, são precários. Em outro ponto, (p. 146) lugares comuns, como 'as paredes pintadas pareciam envolvê-lo como fantasmas'. Figuras de linguagem banais.
O andamento da história, com a trama da vingança do croata tampouco desenvolve. O croata é inconveniente, abusado, inconsistente intelectualmente, arrogante e pedante. Faltam-lhes as verdadeiras características do vingativo, do assassino: não é ardiloso, não conhece a forma de pensar do seu inimigo, sequer sente inimizade por aquele que planeja matar.
Por que ler o livro? Tem um fio condutor filosófico que vale a pena. Fala das leis do acaso (p.169). E quando ele diz: "Fotografar não o homem, mas seu rastro" (p. 156). Mas são absolutamente pessoais, creio. Na página 220, há uma citação quase literal de Susan Sontag: "A Violência Transforma a Pessoa que a Sofre em Coisa.". E Sontag escreveu:"A Violência transforma em coisa toda pessoa sujeita a ela." A citação está quase ipsis literis, está lá! Incomoda porque parece que a idéia é dele, do autor...
Coisas que gostei:
"Há Certos Lugares dos quais a Gente Nunca Volta." (p. 59)
"A Noite Voa. E nos Escapa em Prantos." (p.144)
Estou agora terminando a leitura do "Cartier-Bresson O Olhar do Século", de Pierre Assouline. Apesar da infinita admiração que tenho pelo fotógrafo genial que foi Bresson, não gostei também deste livro, que é explicitamente de um admirador.
Então, de que gosto?
Leiam "O Mulo", de Darcy Ribeiro, ou "Mayra", do mesmo autor. O 'Mulo' é tão alma e tão carne que até dói comentar... Na próxima, vai.