sexta-feira, 13 de agosto de 2010

GENTE É FEITA PRÁ BRILHAR

A Extraordinária Aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha




'A tarde ardia em cem sóis

O verão rolava em julho.

O calor se enrolava

no ar e nos lençóis

da datcha onde eu estava,

Na colina de Púchkino, corcunda,

o monte Akula,

e ao pé do monte

a aldeia enruga

a casca dos telhados.

E atrás da aldeia,

um buraco

e no buraco, todo dia,

o mesmo ato:

o sol descia

lento e exato

E de manhã

outra vez

por toda a parte

lá estava o sol

escarlate.

Dia após dia

isto

começou a irritar-me

terrivelmente.

Um dia me enfureço a tal ponto

que, de pavor, tudo empalidece.

E grito ao sol, de pronto:

Desce!

Chega de vadiar nessa fornalha!



E grito ao sol:

Parasita!

Você aí, a flanar pelos ares,

e eu aqui, cheio de tinta,

com a cara nos cartazes!



E grito ao sol:

Espere!

Ouça, topete de ouro,

e se em lugar

desse ocaso

de paxá

você baixar em casa

para um chá?



Que mosca me mordeu!

É o meu fim!

Para mim

sem perder tempo

o sol

alargando os raios-passos

avança pelo campo.

Não quero mostrar medo.

Recuo para o quarto.

Seus olhos brilham no jardim.

Avançam mais.

Pelas janelas,

pelas portas,

pelas frestas

a massa

solar vem abaixo

e invade a minha casa.

Recobrando o fôlego,

me diz o sol com a voz de baixo:

Pela primeira vez recolho o fogo,

desde que o mundo foi criado.

Você me chamou?

Apanhe o chá,

pegue a compota, poeta!



Lágrimas na ponta dos olhos

- o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro

o samovar:

Pois bem,

sente-se, astro!



Quem me mandou berrar ao sol

insolências sem conta?

Contrafeito

me sento numa ponta

do banco e espero a conta

com um frio no peito.

Mas uma estranha claridade

fluía sobre o quarto

e esquecendo os cuidados

começo

pouco a pouco

a palestrar com o astro.

Falo

disso e daquilo,

como me cansa a Rosta,

etc.

E o sol:

Está certo,

mas não se desgoste,

não pinte as coisas tão pretas.

E eu? Você pensa

que brilhar

é fácil?

Prove, pra ver!

Mas quando se começa

é preciso prosseguir

e a gente vai e brilha pra valer!

Conversamos até a noite

ou até o que, antes, eram trevas.

Como falar, ali, de sombras?

Ficamos íntimos,

os dois.

Logo,

com desassombro

estou batendo no seu ombro.

E o sol, por fim:

Somos amigos

pra sempre, eu de você,

você de mim.

Vamos, poeta,

cantar,

luzir

no lixo cinza do universo.

Eu verterei o meu sol

e você o seu

com seus versos.



O muro das sombras,

prisão das trevas,

desaba sob o obus

dos nossos sóis de duas bocas.

Confusão de poesia e luz,

chamas por toda a parte.

Se o sol se cansa

e a noite lenta

quer ir pra cama,

marmota sonolenta,

eu, de repente,

inflamo a minha flama

e o dia fulge novamente.

Brilhar para sempre,

brilhar como um farol,

brilhar com brilho eterno,

Gente é pra brilhar

que tudo o mais vá prá o inferno,

este é o meu slogan

e o do sol.'

Lomografia de Gabriela Breitenbah.