domingo, 24 de julho de 2011

Eu e o Futebol

Eu era uma pequena menina, meu pai comprou uma televisão em preto e branco, era o ano de 1970 e iríamos assistir a "Copa de 70". Ali, vi pela primeira vez o futebol, aprendi que ele vinha da Inglaterra, meu pai falou-nos de Charles Miller e em seguida descobri que era gremista. Fui rebatizada gremista portanto, camisa que pela honra jamais deveria abandonar, vira-casacas seriam banidas. Fui alertada que o inimigo era o "Colorado" em quase qualquer circunstância. Quase porque não seria pecado torcer pelo Inter em caso de final mundial de times, mas nada de entusiasmo, ok? Pelo Grêmio, sempre, sempre, sempre, até a pé...
A infância removia qualquer filtro e via festa em todo acontecimento futebolístico: o Brasil torcia e eu também... A massa ia, e eu moldava-me...
Depois, veio a adolescência e descobri que o futebol é uma guerra. Através dele, derrotava meus oponentes, a vizinha colorada, ah, a vingança... E descobria novos motivos para chorar o choro longo que as adolescentes tanto apreciam (1982, final do brasileiro: Grêmio 0 x Flamengo 1). Uma vontade dolorida e comprida de não ir para a escola. A vingança viria em 89, com os 6x1 do Grêmio contra o mesmo Flamengo, mas então meus sonhos já vagueavam por outras pradarias...
Descobria meus lindos craques, o Renato Gaúcho, que as mulheres todas têm um fraco, o Leão, depois vieram outros times, o Dudamel da Venezuela... Aprendi o que é um homem bonito assistindo futebol. Acho que foi minha mãe quem me ensinou a observar atentamente as pernas dos jogadores e outros predicativos, claro.
A fase adulta matou meu futebol, foi quando desviei a poesia para a literatura, a arte para a fotografia e o sonho para outras esferas, várias, menos palpáveis ainda que o futebol. Vieram homens de cartola e desarticularam meus sonhos de criança, e hoje o ídolo é um cara com um cabelo horrível, e um outro magricelo e não tem mais ninguém com o charme do Cerezzo e dos outros craques posando para a foto. Tem o Kaká, menos devasso ainda que a Sandy...
Resistirei mais um ou dois anos antes da definitiva decisão que será sentida por todo o universo futebolístico: abandonar o futebol. Creio que não sairá nos jornais.

Na estampa, retirada do blog hannabarberashowparte2.blogspot.com, a primeira forma de contato que tive com o mundo do futebol: eu e Ana colecionávamos figurinhas, preenchendo o álbum, beijando as estampas dos nossos heróis e esbofeteando nossos oponentes...

O Mistério dos Bettú

No Vale dos Vinhedos e arredores bebe-se os melhores vinhos do Brasil. O top de cada família, os 'terroirs' especiais, as safras mais queridas, os vinhedos que fizeram história.
Este ano, nas visitas de fevereiro e julho ao Vale, novas e intrigantes descobertas: a Peculiare, com seu vinho bem cuidado, Ronaldo no balcão, na vinha e nos tanques - assim como toda a família. A Barcarolla, única do Vale a produzir o Lagrein, uva trazida da região do Trento, de onde provém a maoria das famílias, com sabor delicado e festivo, frutado, lembrando alguma coisa a gamay. Os vinhos Dom Cândido, em ótima forma. Alguns outros, poucos, que a lembrança me impede de mencionar.
Mas é na casa dos Bettú (Estrada do Sabor) que encontro vinhos especiais. São vinhos feitos, eu acho, com carinho e delírio. Com mão secular e alegre paixão. Todos os vinhos são excelentes. Os que não têm tempo suficiente de produção, são de safras muito jovens, volto sempre em um ano, dois, três (tenho voltado há nove anos), provo-os e lá estão vinhos que nos confundem. Conhecendo a família e a forma de produzir, acreditamos que não há cálculo ali, e que a técnica pode ser modificada a qualquer momento, apenas porque faz sol ou porque o pão tem que ser feito, ou porque as meninas estão na casa...  Há mistério no vinho, em cada um e em todos.
E há festa quando chegamos, uma festa feita de sorriso que se amplia conforme se esvaziam as garrafas.
Bendito sejas, Mistério...
Aqui, fotografei Salete Bettú: ela é delicada e bela e gosto de estar a seu lado.