sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Prá Viajar no Cosmos

Ia escrevendo o título do post, 'Foi lá por 72...', que é como começa uma canção do Nei Lisboa. Mas então pensariam que eu já estava tão atenta, lá por 72.
Não, nesta época, o Brasil fervilhava de milicos, ditadura: Repressão e Resistência, e em vários momentos, nenhum dos lados sabia ao certo o que estava fazendo, mas a repressão desejava enquadrar um país sob seu jugo, sem liberdade, com servilismo e à base da opressão e tortura. A resistência lutava pela democracia, sem a qual não existe a cidadania.
Depois de cantar umas canções, ontem à noite, era isto que ia dizendo Nei Lisboa, músico gaúcho que canta MPB, eu chamo de música porto-alegrense, depois conto porquê.
Nei ia falando sobre as mudanças no país e especialmente do momento incrível que vivemos agora: praticamente sem dúvidas teremos no poder uma ex-guerrilheira. Falava isto porque ele participou dos movimentos contra a ditadura, viveu essa época na pele, eu vivi criança. São as mudanças de paradigma político e social de um Brasil que está muito bem, obrigada.
Na platéia, limpa e cheirosa, que lá por 72 também tinha seus ideais, vários se remexiam incomodados. Os serristas, provavelmente. Os eleitores da Marina não demos importância, sabemos como é necessária a reflexão, e não enterrar com cal o que fizemos, nossas lutas e os sonhos que tínhamos, e as necessidades, as urgências da época.
Nei Lisboa faz um necessário exercício, para que nunca nos esqueçamos e nunca mais tenhamos que abrir mão de nossa liberdade democrática.
Depois cantou as canções que embalaram nossa juventude e pré maturidade, onde me situo um tanto reticente. Em outro post farei observações sobre a compreensão da musicalidade de Nei. A fotografia é da praia que amo, Campeche, inverno de 2010.


Abaixo, 'Prá Viajar no Cosmos não Precisa Gasolina'.

"Eu visito estrelas


Lendas, profecias

Procurando um verso

Que dissesse tudo

A verdade da galáxia

Se algum dia o sol vai derreter

E o povo passa fome

O povo quer comer



Eu solto tudo aqui de cima

Jogo tudo pro céu

Desarmo com carinho as armadilhas

Que entravam meu caminho

A uma vida natural

Mas sempre tem um grilo

Cri-cri-cricando meu prazer

O povo passa fome

O povo quer comer



Barões, fragatas, plutônios,

Neurônios explosivos

Não impedirão

Que o ciclo evolutivo do planeta

Cumpra o seu dever

Mas dando no que der

Já sei que um dia vou morrer

E o povo...

Ah, o povo... "

Aconteceu em Piratuba

Uma cidadezinha bem na curva "S" do Rio do Peixe, um lado do estado que eu não conhecia, um sentimento meio esquecido, uma sensação no corpo já esquecida. O calor das águas e das gentes e tudo fica muito bem, e mais as cachaças com os amigos, antes do almoço, ou os vinhos coloniais ao jantar...
O festival pareceu-me um sucesso, agricultores, cineastas, técnicos e afins satiseitos pelo que viam, eu comia uma rosca com nata num lugarzinho que era o café colonial, com os amigos, e é um lugar onde chegam os secretários das coisas municipais, e o prefeito e todos os outros que somos nós mesmos, e as conversas versam sobre a festa, o cotidiano, as chuvas, a agricultura e o desejo. Nem sei se eles sabem que falam sobre o desejo quando falam daquilo que fizeram acontecer, o belo festival, onde se fazem presentes também os espertos, os homens da capital, os senhores da senzala - mas, sorte, nada disso abala o fantástico ritmo bem resolvido da cidade tão bela de Piratuba.
Bom o bailado, as vaneiras, mas no fim, sempre falta um 'chamamé'...
E o rio segue seu curso, não obstante jamais ser o mesmo...

A foto que posto, do Centro de Eventos de Piratuba, é de autoria do Nilson, querido amigo, da Epagri. Ele também gosta de céu nublado com nuvens que falam.