terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Morro do Horácio


Algumas vezes subi este Morro, não em busca do que vai a maioria, suas casas ou a preciosa mercadoria que lá se encontra. Homens e mulheres saem do seu trabalho, na 'grande cidade', nossa ilha capital, e para lá retornam, repousar seu cansaço, após enfrentar no final da tarde o transporte feito para conduzir gado que é este aqui da ilha. Não há olhos neste momento para ver o sol que se põe, maravilha postal sobre a 'Beira Mar'. Lá embaixo, o Angeloni a quase todos abastece, a paz é restaurada.

Outros sobem o morro em seus carrões: cuidado. Pode ser um usuário mas pode também ser um polícia à paisana.
Nós subimos para fotografar.
Fomos conduzidos pela enérgica diretora da escola que já educou tantos daqueles que nos cumprimentam, agora, lá das calçadas. O grupo de Fotografia abre bem os olhos: abram mais, para não esquecer esta parte esquecida da nossa "Ilha da Magia". Abram, arregalem seus olhos, vejam que o mundo não é de plástico e o clima não é de primavera, como nos é dado a conhecer aqui embaixo. Lá de cima a vista é linda e a vida é crua. Sim, abram bem seus olhos. Vejam as pipas.
A mim faz bem, me dá dias de reflexão, de que a vida não é só tomar, é doar. Tomamos e doamos fotografias lá.
A escolinha antiga, cheia de poesia e imundície, foi abaixo. Agora, ergue-se a escola nova, com vazados na parede que, iluminados à noite, lembram as pipas de que as crianças tanto gostam. Um pouco mais de beleza onde tudo se despeja de uma vez só, o belo, o rude, o cru, a vista.
Não, o mundo não é mesmo de plástico. Vejam isto. Vejam e contem, fotografias.

Uma Canção de João Bosco

MALABARISTAS DO SINAL VERMELHO

Daqui de cima da laje
Se vê a cidade
Como quem vê por um vidro
O que escapa da mão
Uns exilados de um lado
Da realidade
Outros reféns sem resgate
Da própria tensão

Quando de noite as pupilas
Da pedra dilatam
Os anjos partem armados
Em bondes do mal
Penso naqueles que rezam
E nesses que matam
Deus e o diabo disputam
A terra do sal

Penso nos malabaristas
Do sinal vermelho
Que nos vidros fechados dos carros
Descobrem quem são
Uns, justiceiros, reclamam
O seu quinhão
Outros pagam com a vida
Sua porção
Todos são excluídos
Na grande cidade

(fotografia: Mara Freire, vista a partir do Morro do Horácio).