terça-feira, 2 de junho de 2009

Angelo Muria


É a fotografia do meu amigo fabuloso Angelo Muria. Ele é africano, está em período de doutoramento no Brasil e estava no Congresso em Belém. Contou-nos da situação de seu país, Moçambique, independente há apenas três décadas. A parte boa é que acabaram-se os conflitos pós guerra civil neste período de democratização. As seqüelas, com trema, que será sempre a seqüela da palavra seqüela - ao menos para os teimosos - são, entre outras, níveis de analfabetismo em torno de 60%. E la nave và... (Florianópolis e Belém magoados porque a copa de futebol não vai mesmo ser em seus improváveis territórios... Valei-me, Nossa Senhora de Nazaré!)

Ê, Pará...


O Pará é lindo. Visto de cima, uma beleza recortada por serpentes de água. A mata, uma pena, é colcha de retalhos verdes. O povo, aquela beleza de lidar com o povo do Norte... A religiosidade, as festas, os mercados, tudo novo para uns olhos que já viram Brasil... O Norte é o Norte, desigual de doer, doer de lindo e doer de dor doída também, porque tem um abandono lá que se percebe histórico. No frigir dos ovos, ver os amigos, tomar Cerpa, nadar nas águas quentes dos rios e comer peixes de 40 quilos que ainda são filhotes... História é o que não falta deste Norte. Nem belezas. Infelizmente, também não faltam mazelas do povo. Porque faltar, faltar, parece que só falta uma coisa: governança para educar, dar ensino que preste, cumprir o que promete, pelo menos no que tange a quem de fato necessita: os mais pobres, que falam mais fraco... Povo do Norte, que mexe mais comigo que o avião da Air France, que me comove mais que Villa-Lobos, que é mais doce que o cupuaçu. Uma foto no Mercado ver o Peso. Mulheres vendendo a cura para todos os males. (A mulher paraense é abundante, exuberante, vigorosa, sorridente, morena: elas me pareceram lindas e fortes).

Ah, Pará...


Impressões sobre o Pará.


Chegar a Belém é tão abafado quanto chegar a Manaus. As águas que cercam a cidade por todo lado, quase todo lado, posto que não se trata de uma ilha, deixam-na feito uma sauna, e o visitante com a necessária sensação de que está grudando. Agora, final de maio, é época do verão por lá, portanto as chuvas devem parar. A temperatura de 31 graus aliada à umidade faz com que os moradores desejem chuvas o tempo todo. O que irrita o turista é bem-vindo para eles.

Posso dizer a verdade, que é, o povo de Belém é agradável no trato, são solícitos e têm este espírito que está também no nordeste, que é achegar-se, ter interesse pelo outro, ouvir e falar. Aqui para o Sul não é bem assim. Não obstante, e ainda dentro do quesito verdade, é uma capital ameaçadora. Fiquei em um hotel na beira do belíssimo rio Guamá, embarcações desde cedo e de todos os tamanhos indo e vindo. O primeiro desejo: atravessar o rio, entrar por um daqueles furos e descobrir o que é que tem lá na Ilha em frente, Ilha do Combú...

Para isto, parti em uma embarcação, na companhia de João e dos barqueiros Ivaldo e Leandro. Conheci a comunidade e as casas ribeirinhas, as embarcações, a escola, a igreja e a forma de viver das pessoas, colhendo cacau, as moças lavando roupas submersas até a cintura no rio, o transporte único possível, barcos a motor, a remo, de um tronco só...

Para chegar lá, peguei o barco no Porto da Palha, totalmente condenado por minha amiga Regina Simões: aliás, em todo o bairro da universidade (UFPA), como confirmou o taxista, não se deve andar a pé. Sequer um quarteirão. Não é apenas a impressão má, do lixo pelo chão, da lama fétida; na verdade, o lugar dá romance e fotografia, mas é criminoso deixar as pessoas viverem à margem desta forma. A impressão foi de governo, ou série de governos, omisso.

Passo a postar comentários e fotografias sobre esta experiência paraense, meu segundo norte, o primeiro foi o Amazonas. A foto, Homem no Combú.