terça-feira, 3 de maio de 2011

Sempre Drummond


O Mito
Carlos Drummond de Andrade

Sequer conheço Fulana,


vejo Fulana tão curto

Fulana jamais me vê,

mas como eu amo Fulana.



Amarei mesmo Fulana?

ou é ilusão de sexo?

talvez a linha do busto,

da perna, talvez o ombro.



Amo Fulana tão forte,

amo Fulana tão dor,

que todo me despedaço

e choro,menino, choro



Mas Fulana vai se rindo...

Vejam Fulana dançando

No esporte ele está sozinha

No bar, quão acompanhada.



E Fulana diz mistérios,

diz marxismo, rimmel, gás.

Fulana me bombardeia,

no entanto sequer me vê.



E sequer nos compreendemos,

É dama de alta fidúcia,

tem latifúndios, iates,

sustenta cinco mil pobres,



Menos eu... que de orgulhoso

me basto pensando nela

Pensando com unha, plasma,

fúria, gilete, desânimo.



Amor tão disparatado,

Desbaratado é que é...

Nunca a sentei no meu colo

nem vi pela fechadura.



mas eu sei quanto me custa

manter esse gelo digno,

essa indiferença gaia,

e não gritar: Vem, Fulana!



Como deixar de invadir

sua casa de mil fechos

e sua veste arrancando

mostrá-la depois ao povo



tal como é, ou deve ser:

branca, intacta, neutra, rara,

feita de pedra translúcida,

de ausência e ruivos ornatos.



Mas como será Fulana,

digamos, no seu banheiro?

Só de pensar em seu corpo,

o meu se punge...Pois sim.



Porque preciso do corpo

para mendigar Fulana,

rogar-lhe que pise em mim,

Que me maltrate... Assim não.



Mas Fulana será gente?

Estará somente em ópera?

Será figura de livros?

Será bicho? Saberei?



Não saberei? Só pegando,

pedindo: Dona, desculpe,

O seu vestido esconde algo?

tem coxas reais? cintura?



Fulana às vezes existe

demais: até me apavora.

Vou sozinho pela rua,

eis que Fulana me roça.



Olho: não tem mais Fulana.

Povo se rindo de mim.

(Na curva do seu sapato

o calcanhar rosa e puro.)



E eu insonte, pervagando

em ruas de peixe e lágrima

Aos operários: a vistes?

Não, dizem os operários.



Aos boiadeiros: A vistes?

Dizem não os boiadeiros.

Acaso a vistes, doutores?

Mas eles respondem: Não!



Pois é possível? pergunto

aos jornais: todos calados.

Não sabemos se Fulana

passou. De nada sabemos.



E são onze horas da noite,

são onze rodas de chope,

onze vezes dei a volta

de minha sede; e Fulana



talvez dance no cassino

ou, e será mais provável,

talvez beije no Leblon,

talvez se banhe na Cólquida;



talvez se pinte no espelho

do táxi; talvez aplauda

certa peça miserável

num teatro barroco e louco;



talvez cruze a perna e beba,

talvez corte figurinhas,

talvez fume de piteira,

talvez ria, talvez minta.



Esse insuportável riso

de Fulana de mil dentes

(anúncio de dentifrício)

é faca me escavacando.



Me ponho a correr na praia.

Venha o mar! Venham cações!

Que o farol me denuncie!

Que a fortaleza me ataque!



Quero morrer sufocado,

quero das mortes a hedionda,

quero voltar repelido

pela salsugem do largo,



já sem cabeça e sem perna,

à porta do apartamento,

para feder: de propósito,

somente para Fulana.



E Fulana apelará

para os frascos de perfume.

Abre-os todos: mas de todos

eu salto, e ofendo, e sujo.



E Fulana correrá

(nem se cobriu; vai chispando)

talvez se atire lá do alto.

Seu grito é: socorro! e deus.



Mas não quero nada disso.

Para que chatear Fulana?

Pancada na sua nuca

na minha é que vai doer.



E daí não sou criança.

Fulana estuda meu rosto.

Coitado: de raça branca.

Tadinho: tinha gravata.



Já morto, me quererá?

Esconjuro se é necrófila...

Fulana é vida, ama as flores,

as artérias e as debêntures.



Sei que jamais me perdoara

matar-me para servi-la.

Fulana quer homens fortes,

couraçados, invasores.



Fulana é toda dinâmica,

tem um motor na barriga.

Suas unhas são elétricas,

seus beijos refrigerados,



desinfetados, gravados

em máquina multilite.

Fulana, como é sadia!

Os enfermos somos nós.



Sou eu, o poeta precário

que fez de Fulana um mito,

nutrindo-me de Petrarca,

Ronsard, Camões e Capim;



Que a sei embebida em leite,

carne, tomate, ginástica,

e lhe colho metafísicas,

enigmas, causas primeiras.



Mas, se tentasse construir

outra Fulana que não

essa de burguês sorriso

e de tão burro esplendor?



Mudo-lhe o nome; recorto-lhe

um traje de transparência;

já perde a carência humana;

e bato-a; de tirar sangue.



E lhe dou todas as faces

de meu sonho que especula;

e abolimos a cidade

já sem peso e nitidez.



E vadeamos a ciência,

mar de hipóteses. A lua

fica sendo nosso esquema

de um território mais justo.



E colocamos os dados

de um mundo sem classes e imposto;

e nesse mundo instalamos

os nossos irmãos vingados.



E nessa fase gloriosa,

de contradições extintas,

eu e Fulana, abrasados,

queremos... que mais queremos?



E digo a Fulana: Amiga,

afinal nos compreedemos.

Já não sofro, já não brilhas,

mas somos a mesma coisa.



(Uma coisa tão diversa

da que pensava que fôssemos.)