terça-feira, 7 de julho de 2009

A QUINHENTOS METROS Cecília Meireles



É um texto que sempre encontro incompleto, por todo lugar. Ei-lo na íntegra, para os admiradores. A modelo da fotografia é minha querida Nick, que está a mais de quinhentos metros...

"A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!), mas, a quinhentos metros, tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa - e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte. Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, - bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista. É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos calásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram? Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, como a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos o que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos. A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a uns quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória... - É assim em quinhentos metros!"

Leminskianas 3



Viu-me
E passou
Como num filme
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(foto: Richard Avedon )

Leminskianas 2

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

Leminskianas


Lembro e louvo a assinatura do governo acerca da anistia dos nossos irmãos estrngeiros, ilegais no Brasil.

Ilustro um hai kai de Paulo Lemiski com uma fotografia de Oliviero Toscani. Porque penso que as pessoas devem viver sem limites de cor, gênero, credo, línguas... Menos fronteiras, menos preconceitos, mais amor.


sabe da última?
a chuva lavou
a minha culpa