quarta-feira, 27 de maio de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CANAL DAS BRUXAS






Há um canal entre a Ilha do Campeche e a Praia, onde alguns se aventuram a nadar, outros e outras, surfar, especialmente se as ondas forem de direita, e até se pesca lá, já que as tainhas passam bem por ali, quando não dão de passar por fora... Dizem que há bruxas no canal, que cuidam da força das ondas, das correntes, dos peixes que passam... Às vezes espantam, às vezes protegem. Vá saber do humor bruxólico...
Era uma tarde do mês de abril, começo do século, eu dava aulas de fotografia no ateliê, lá estava com a aluna, minha mãe foi andar na praia. Não sendo ainda o tempo das tainhas, nem me preocupava. Ir ao mar, só pela brisa, pelo som, pelo sol. Ótimos motivos, nenhum tão passional quanto aquele que me move quando chega maio, época de tainha: o arrastão, a pesca de beira de praia...
Ano após ano negaceava com o Mestre, Patrão das Redes, uma ida ao mar embarcada na canoa. Já ouvira de tudo: ‘Por que tu queres ir no barco?’, ‘Mulher não sabe remar’, ‘A única mulher que saiu no barco foi minha irmã, quando era moça’, (Por que, Getúlio?), ‘Por imposição de papai – ela queria... ’.
Eu queria mostrar a pesca vista do mar, o trabalho dentro da embarcação. Um dia o Mestre me disse: ‘Quando o mar estiver manso, tu sais’. Sair na canoa, fantástico! Por que ele permitira? Meu argumento era de que eu já vira a partir de todas as perspectivas, a pesca. Quase que já até do olho da tainha. Ele considerou que as fotografias iam para exposições, saíam no rádio, deu no jornal, TV, e isto era bom para a pesca, pois preservava e divulgava a atividade já em extinção nas praias do nosso litoral.
Terminada a aula, era de tardezinha, fui à praia. Ainda tinha bastante sol, mas eu nem pensava em fotos: não era temporada nem nada e era tarde, já. Claro que levei uma câmera, nunca se sabe, com um finzinho de filme e mais um rolo de cromo numa bolsinha. Chegando lá, Getúlio: ‘Hoje tu sais na canoa’, vi a água mansa que só vendo e gelei. E eu tinha 40 ‘poses’ à minha disposição. Subi na canoa e ainda ouvi um dos mais velhos comentar, ‘Ih, vai dar azar... Deixa eu ver se o pé ‘tá frio... ’.
A canoa saiu, remada pelos homens, com Getúlio na proa, comandando, indo atrás de um cardume que eu não enxergava, lançando as redes. Pois fotografei redes, remos, remadores, sal, suor, a praia e as gentes, minha mãe preocupada ‘Ai, meu deus, é uma louca essa minha filha!’, e troquei o filme. Restavam ainda 36 fotos! Na troca do filme, era uma Nikon f90, forte, tudo correu bem. Bati uma foto, duas três e a câmera abriu. A-B-R-I-U. A tampa traseira. Expôs o filme, ‘queimando’ as fotos feitas e velando as poses seguintes. Não fechava mais. Com a correia da câmera ainda tentei mantê-la fechada, mas o resultado, pior que sofrível.
A Pesca? Foi muito boa. Para a época, mais de duas centenas de peixes numa saída sem expectativas... As fotos, nunca pude mostrar. Comentei com apenas um deles o ocorrido: ‘Foram as bruxas do canal’, foi o que ouvi. Passei a crer em cada milímetro das conversas que ouvia, tudo com seu sabido encantamento e seu viés de verdade, às vezes dourando velhas histórias e às vezes fundando novos mitos e crenças.

Um comentário:

  1. Alem dessa tem outras historias interessantissimas.
    Voce escreve tao bem, que nos transporta...
    Devia fazer um livro!
    Belas imagens ja tem.
    Eternizar e divulgar tudo isso!!!
    Ja vejo um pai sentado com seu filho embaixo de uma arvore,
    mostrando as fotos e contando suas historias...

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